PANAPLÉIA

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Bem-vindo(a) ao Laboratório de Autoria de Panapléia! À esquerda das postagens, estão meus textos divididos em categorias e temas. À direita, indicações de blogs e as mídias sociais. No rodapé, mimos felinos e os créditos do blog. Boa leitura!

SOCIEDADE DOS POETAS LOUCOS

À Soraia Falcão, amiga felina

Soraia Falcão e Paula Izabela no camarim do CCBNB em 2008.

Na noite anterior, eu deveria ter ido para o Cabaré Soçaite com minha fantasia natalina. Os amigos me abandonaram e as amigas estavam algemadas aos namorados. Fui dormir chateada por perder a festa do DJ RKabaré. Acordei sem disposição, enrolei na cama por longo tempo, tomei um mini-banho (como diz Tallyta Paula), sai em jejum e a pé. Já estava bem longe do ap quando percebi que havia deixado o convite na outra bolsa. A única amiga que conhecia o endereço procurado não atendia ao celular. Tomei um táxi para não perder tempo tentando me localizar na capital.
No casarão restaurado fui recebida por um porteiro sorridente que não conhecia a pessoa que eu estava procurando. Como o espaço era aberto ao público, aproveitei para bisbilhotar nos cômodos imensos. Sempre fui apaixonada por antiguidades, senti-me estimulada a perscrutar cada detalhe daquele lugar.
Fui interpelada pelo caseiro setuagenário que também não sabia nada sobre o convite que eu havia recebido. Minha excursão fascinante foi interrompida por seu falar arrastado e sua conversa cansativa. Ele me contou sobre a família proprietária do imóvel, citou algumas datas e nomes (visivelmente decorados para impressionar os visitantes), narrou alguns causos e me reteve assim por quase uma hora – em pé, na sombra de uma mangueira que lançava mísseis maduros em intervalos curtos. Fiquei observando calmamente o tipo indecifrável e verborrágico. O ser humano, principalmente o sem-noção, instiga minha curiosidade.
Lá pelas 10h, chegaram alguns octogenários requintados e falantes. Aos poucos o lugar foi se povoando por grupinhos de cinco ou seis pessoas em diferentes pontos. Ensurdeci para o meu interlocutor, absorta no movimento ao nosso redor. Percebendo meu interesse, o caseiro começou a apresentá-los à distância. Fiquei me imaginando na idade deles, novamente minha mente se distanciou da voz de Seu Ferreira.
Quando aquela chateação já me fazia bocejar, um senhor de suspensório veio me resgatar daquele papo enfadonho e me convidar para ouvir poesias. Em segundos descobrimos que a pessoa que me convidara frequentava aquele grupo, mas ainda não havia chegado.
Fui levada a um auditório minúsculo, ocupado por senhores carecas e senhoras de cabeleiras loiras – visivelmente pintadas. Fiquei observando a mobília antiga e tentando adivinhar as histórias que poderiam me contar se falassem. Foram poucos minutos de viagem no tempo até minha presença ser percebida. Expliquei-lhes que era professora de Literatura, morava em Juazeiro do Norte, havia sido convidada para o aniversário e aproveitei para distribuir os convites do evento gratuito que realizaria naquela noite. Imediatamente me colocaram no alvo – logo eu que odeio entrevistas! Passei a explicar tudo sobre minha cidade: belezas naturais, número de habitantes, desenvolvimento urbano, questões político-partidárias, blá-blá-blá-blá. Ao esgotarem as questões municipais, tive que responder sobre as escolas, o salário dos professores, o comportamento dos alunos, a rotina nas salas de aula, etc-etc-etc-etc. Sábio foi o Quintana ao rotular o perguntativo o pior de todos os chatos.
Desejei ter nascido muda, surda ou qualquer coisa que equivalha, quando surgiram indagações sobre a obra de poetas cearenses que eu mal conhecia de nome. Percebi que bancar a entendida só multiplicaria as perguntas, comecei a lançar um muxoxo para cada nome proposto. O senhor que conheceu minha cidade em sua juventude antipatizou minhas reações e passou a me tratar com desdém. Um jovem (aparentando algum distúrbio psíquico) sugeriu que cada um lesse um poema da própria autoria para que eu analisasse. Diante do apoio veemente do grupo não tive como recuar, embora tenha desejado sair correndo. Um poema, um comentário vago; outro poema, outro comentário forjado; mais um poema, mais um comentário escuso...
Pelos meus cálculos a tortura se estenderia pelas próximas horas, mas fomos interrompidos pela aniversariante que chegou-chegando, vestida como uma debutante e carregada de presentes lacrados (onde ela havia recebido tantos?). A mulher parecia uma caricatura daquela que fizera interferências sensacionais nas minhas aulas – aluno é sempre surpreendente! Eufórica se desculpou pelo atraso, me apresentou como sua mestra e fez um discurso elogioso sobre o curso que eu havia ministrado naquela semana. Não evaporei de constrangimento porque tinha esperança de um tsunami destruir a cidade ou simplesmente um tufão derrubar o teto em nossas cabeças.
– Izabela? Izabela!
Não, não era a minha mãe me acordando para dizer que ficar lendo até de madrugada causa pesadelos.
– Amiga felina!!!
Peguei minha bolsa e pulei no meio do corredor. Sussurrei disfarçadamente, enquanto fingia que arrumava algo no vestido:
– Leia os meus raivosos lábios rosados: ci-la-da, pe-ri-go! Vamos cair fora, já!
A aniversariante foi nos buscar para apresentar Soraia no auditório. Longo discurso, uma verdadeira ode, mais aplausos.
– Amiga Cat, que lugar é esse, pelo amor de Deus? – Soraia cochichava.
– É um manicômio para artistas e se não fugirmos logo vamos ficar por aqui mesmo... – eu respondia silabando as palavras.
Terminada a primeira sessão aquém-tapete-vermelho-sem-paparazzo, a aniversariante nos levou para visitar os outros grupos. Novos discursos, aplausos-aplausos, mais perguntas nonsenses e a distribuição dos convites do nosso evento (o preço que se paga para viver da própria arte). Depois de atrapalharmos a reunião dos cordelistas, dos radialistas e dos enxadristas por insistência da aniversariante, o que ainda me mantinha respirando era a ilusão de estar bem perto da morte e já ter purgado meus pecados um por um.
– Amiga Cat, não podemos demorar. Eu só passei aqui para avisar o ocorrido... – era o plano improvisado, mas com alguma verdade.
– Felina, se não encontramos o véu da moça fantasma no ateliê da Amélia... A gente procura uma loja aberta, onde possa ser comprado um.
– Mas se não formos agora resolver isso, não dará tempo ensaiar. A Amélia não mora mais naquele apartamento que era aqui perto.
Não havíamos combinado nada, mas toda a conversa se encaixava de forma verossímil – como os adolescentes fazem quando precisam enganar os pais. Uma professora de Literatura e uma atriz deixaram a feliz aniversariante preocupadíssima.
– Mas eu não posso deixar vocês irem embora sem se servirem. Onde já se viu tamanha grosseria?  Vocês são as convidadas de honra, meninas!
Fomos interrompidas pelo caseiro com o recado dos poetas que nos esperavam no auditório. Com alguns minutos da técnica teatral de Soraia e da minha cara de pôquer conseguimos nos despedir da sexagenária de saia balonê que seguiu para seu momento democrático.
– Só vou deixá-las porque sou uma das candidatas à diretoria e não posso estar ausente da votação.
Fomos levadas ao banquete dionisíaco, onde o álcool era dispensado visto que todos ali viviam embriagados por osmose artística. Expliquei para Soraia que nosso almoço seria aquele mesmo para termos tempo para as compras. Nem estávamos com fome, mas nos vingamos das aporrinhações nos salgados e no refrigerante.  
Quando disse ao caseiro que iamos embora – para nunca mais voltar porque Deus é fiel! – ele lamentou pelo pouco (sei, pouco...) tempo que tivemos para conhecer as atividades. Entregou-me umas folhas mal xerocadas com a história insípida que havia me contado e explicou que eu precisava pagar cinco reais pelo material. Fiquei estarrecida, mas não relutei em abrir a bolsa. Ao notar que a menor cédula que eu possuía era de dez reais imaginei que pagaria o dobro se não houvesse troco. Recorri a Felina:
– Felina, me empresta cinco que pagarei feliz para ir embora daqui agora.
Sorridente Seu Ferreira recebeu a cédula que Soraia estendeu, enfatizando que poderíamos voltar sempre que quiséssemos (sem comentários, por favor). Quando fi-nal-men-te eu dava as costas para aquele universo dramático, já me sentia uma fênix de volta ao caos das ruas, ouvi a proposta apavorante:
– Esperem aqui que tenho uma surpresa para vocês. Não se mexam, não saiam daqui!
– Felina, essa é a chance de fugir daqui, é agora ou nunca!
– Ah, Izabela, sair assim também não, né? O coitado foi tão atencioso com a gente!
– O coitado nos extorquiu cinco reais, isso não merece congratulações. Vamos vazar agora!
– Ah, não, Izabela... Eu não vou fazer isso com o bichinho.
– Mas você não estava aqui cedo comigo para aguentar o bi-chi-nho imitando Roberto Carlos...
– Ele não disse que tem uma surpresa? E se for um presente?
– Só se for de grego. Ou de troiano. Talvez seja um minotauro faminto...!
– Izabela, para com isso! A gente vai embora daqui a pouco! Relaxa, sua alarmista!
– Como é, Soraia? O cara toma conta de um museu vivo, se diz parente de Lampião, quer nos fazer uma surpresa e eu que sou alarmista? Ele vai é nos colocar para correr com tiro de bacamarte!
O sexagenário voltou serelepe, parecia muito mais jovem, estendeu para Soraia um livro úmido com umas setecentas páginas amareladas. Gata de sebos reconheci que era obra rara, esgotada.
– Para mim, seu Ferreira? – Soraia sorriu emocionada.
– Eu não disse que tinha uma surpresa? É uma lembrança da biblioteca daqui para você!
Não é que o velho se encantou com a Soraia... O coroa furtou um livro do acervo do casarão para impressioná-la. Isso é o fim do mundo, D. Orestina!
– Oh, seu Ferreira, o senhor é muito gentil, viu?
Depois de Soraia ter rejuvenescido o caseiro, ganhamos as ruas com aquele depósito de ácaros nas mãos. Minha amiga felicíssima com o presente e eu com um misto de sensações: de frustração a síndrome do pânico, de dormência a estado de choque.
– Amiga Cat, tu tá pronta pra surtar? Tu vai desmaiar quando ver essa loja indiana...
– Eu já estou no meio de um surto. Um surto coletivo suponho! Não desmaio com mais nada.
– Aquela mulher era tão equilibrada no curso, parecia tão inteligente... Parece que agora ela queria provar a superioridade da família, sei lá. E ela nos convidando para irmos um dia à fazenda deles, Izabela? Dizendo que é coisa de cinema!
– Cinema de Faroeste, só se for. Ela é louca! Ela não, eles todos! Ali só tem gente pancada das ideias. Aqueles poetas se acham os imortais... Não passam dos imorríveis! Deus me livre!
– E o caseiro é o menestrel! Nem acredito que o velho me deu esse livro!
– E eu não acredito que dei cinco reais por duas folhas xerocadas.
– Amiga Cat, tu vai esquecer tudo na loja de vestidos indianos.
– Eu vou esquecer tudo quando eu escrever sobre essa manhã bizarra. Já tenho até o título...

| 2010 |

Um comentário:

  1. Eu nunca mais tinha gargalhado tanto com esse relato...meu Deus!!!!
    Izabela parabéns pela narrativa tão descritiva e rica de detalhes...memória fotografica viu?
    Você como sempre...M A R A V I L H O S A !
    E quanto ao livro, está enfeitando a minha estante que ficou mais rica de cultura, e acaros...xerin

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